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O Pão
Desde: 13/05/2002      Publicadas: 148      Atualização: 07/07/2004

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 TRANSPLANTE

  23/05/2004
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Rede de tráfico de órgãos passa por quatro continentes.

Tradução: George El Khouri Andolfato - 23/05/2004 - Mais de 3.300 americanos morreram em 2003 aguardando por transplantes de rim - Larry Rohter - DE RECIFE, Brasil - Quando Alberty José da Silva soube que podia ganhar dinheiro, muito dinheiro, vendendo seu rim, isto lhe pareceu a oportunidade de sua vida. Para uma mulher desesperadamente doente de 48 anos do Brooklyn, Nova York, cujos médicos lhe disseram para obter um rim a qualquer custo, realmente era.

Aos 38 anos, Alberty, um dos 23 filhos de uma prostituta, dos quais apenas 13 chegaram à idade adulta, vive em uma favela perto do aeroporto daqui, em um barraco de dois quartos que ele compartilha com uma irmã e nove outras pessoas.

"Quando era criança eu me lembro de sete de nós dividindo um único ovo, ou vivendo um dia após o outro com um pouco de mandioca com sal", disse Alberty na entrevista.

Ele lembra de sua mãe como uma mulher que "vendia o corpo" para sobreviver. No ano passado ele decidiu que faria o mesmo. Agora, uma longa cicatriz na lateral do corpo marca o local por onde um rim e uma costela foram removidos em troca de US$ 6 mil, pagos por intermediários em uma rede internacional de tráfico de órgãos.

Entre pessoas pobres como Alberty e outros que migraram para as favelas daqui vindos do interior seco do Nordeste, a notícia do mercado para venda de seus órgãos se espalhou rapidamente.

As somas oferecidas parecem uma fortuna. O salário mínimo daqui mal chega a US$ 80 por mês, e é difícil encontrar trabalho. Muitos homens lutam para sobreviver em trabalhos inconstantes que mal pagam um dólar por dia. Inicialmente, os corretores de órgãos pagavam até US$ 10 mil por um rim -mais do que uma década de salário.

O rastreamento da jornada do rim de Alberty, que passou por quatro continentes e terminou em uma apartamento simples de um quarto no Brooklyn, revela o funcionamento de uma rede que os grupos de direitos humanos descrevem como longe de ser única. Segundo os grupos, ela é uma amostra do mercado negro global de órgãos, que incluem fígados, rins e pulmões, que toca dezenas de países e gera muitos milhões de dólares por ano.

No caso de Alberty da Silva, disseram as autoridades daqui, a odisséia do órgão começou com dois intermediários baseados nesta cidade pobre de 1,5 milhão de habitantes: Gedalya Tauber, um ex-policial israelense, e seu parceiro, Ivan Bonifácio da Silva, um policial militar brasileiro aposentado.

A dupla, que foi presa por acusações de tráfico de órgãos, não apenas entregava os pagamentos em dinheiro, disseram as autoridades, mas também agendava os exames médicos para selecionar doadores não qualificados. Eles então obtinham passaportes e passagens aéreas para os doadores viajarem para a África do Sul, onde os transplantes ocorriam. Ambos os países possuem leis contra o comércio de órgãos.

"R$ 6.000 mil é muito dinheiro, especialmente quando você não tem nenhum", disse Alberty da Silva quando questionado sobre o motivo de ter vendido seu rim. "Ninguém aqui avisou a gente que estávamos fazendo algo ilegal."

Arrume um rim ou espere a morte

A mulher americana que recebeu o rim de Alberty inicialmente temeu que estivesse fazendo algo ilegal. Ela descreveu a si mesma como profundamente religiosa e preocupada com a ética dos transplantes.

Mas durante uma entrevista em abril, ela também lembrou dos longos anos de sofrimento que a fizeram correr o risco de procurar um órgão no mercado internacional. A decisão de ir para o exterior em busca de um rim, disse ela em seu apartamento no Brooklyn, não foi fácil, mas foi necessária.

"Eu me submeti a diálise por 15 anos e fiquei em duas listas de transplante por sete", disse a mulher, que pediu para não ser identificada pelo nome, por temer perder os benefícios vitais para manter a saúde de seu órgão transplantado. "Nada acontecia e minha saúde estava cada vez pior." Finalmente, disse ela, "meus médicos me disseram para arrumar um rim de qualquer forma", ou que esperasse a morte.

Mais de 3.300 americanos morreram no ano passado aguardando por transplantes de rim, e a mulher do Brooklyn estava entre as 85 mil em listas de espera de órgãos nos Estados Unidos, 60 mil delas à espera de rins. A espera média pode ser de cinco anos, disse a Rede Unida para Compartilhamento de Órgãos, uma central de informação de transplantes sem fins lucrativos em Richmond, Virgínia.

É ilegal nos Estados Unidos pagar a um doador por um órgão. Mas Nancy Scheper-Hughes da Organs Watch, um grupo de direitos humanos de Berkeley, Califórnia, que há muito tempo acompanha o mercado ilegal de órgãos e denuncia abusos, disse que as irregularidades ainda ocorrem.

"É uma prática comum em muitas clínicas grandes anunciar na Internet em busca de turistas de transplante, de forma que estamos envolvidos até o pescoço nisto", disse Scheper-Hughes. Os médicos de transplante, disse ela, desenvolveram uma política de "não pergunte, não fale".

No caso da mulher do Brooklyn, o marido dela tinha parentes em Israel que ouviram de um sindicato que intermediava transplantes, e os procurou. A mulher e seu marido disseram que os parentes e os intermediários lhes asseguraram que a operação no exterior seria perfeitamente legal.

"Eu me senti indefeso, porque ela ia morrer", disse o marido da mulher, que também se encontra em um estado precário de saúde e recebe auxílio invalidez. "Ajudá-la a obter aquele rim foi a melhor coisa que fiz para alguém em toda a minha vida."

Para aqueles que monitoram o tráfico de órgãos, não foi surpresa Israel despontar como ponto central de um sindicato de distribuição. Os índices de doação de órgãos em Israel estão entre os mais baixos no mundo desenvolvido, com cerca de um terço do índice da Europa Ocidental, em grande parte pelo que as autoridades do Ministério da Saúde e médicos descrevem como a impressão difundida de que a lei religiosa judaica proíbe os transplantes como "profanação do corpo".

Como conseqüência, os israelenses que precisam de transplantes sofrem. Mais de mil pessoas em um país de cerca de 6 milhões estão na lista de espera de órgãos de Israel, mais da metade delas à espera de rins.

Para atender à crescente demanda israelense, os intermediários que chamam a si mesmo de corretores se apressaram em estabelecer preços de mercado para um produto escasso, que pode chegar a US$ 150 mil por um rim. Alguns anunciam abertamente em jornais israelenses e em emissoras de rádio, solicitando receptores e doadores.

A conexão sul-africana
Após longas negociações em Israel, que ela disse que foram conduzidas pelos parentes do seu marido, a mulher do Brooklyn voou para a África do Sul para o transplante. Devido às suas circunstâncias incomuns, isto custou a ela pouco mais de US$ 60 mil, que outros receptores de rins que lidaram com o sindicato disseram ser metade do preço que geralmente cobram.

Apesar de dinheiro ter motivado inicialmente Alberty a vender seu rim, ele disse que também ficou tocado em ter a chance de ajudar um estranho. No Saint Augustine's Hospital, ele conheceu a mulher americana e soube de seu longo sofrimento.

"É difícil para mim imaginar como uma pessoa se sentiria diante de um parente que está prestes a morrer, de forma que não culpo ninguém por tentar qualquer coisa para conseguir um novo rim", disse Alberty.

Com base em um estudo detalhado de registros confiscados, as autoridades sul-africanas disseram que o transplante do rim de Alberty para a mulher do Brooklyn foi um de mais de 100 transplantes suspeitos realizados em menos de dois anos no Saint Augustine's.

Hoje, a diretora da unidade de transplante de rim de lá, Lindy Dickson, e outra funcionária, Melanie Azor, estão entre sete pessoas presas e acusadas de envolvimento na rede ilegal de órgãos. As autoridades do governo disseram que mais indiciamentos ocorrerão. "Nem todos os cartões de convite já foram enviados", disse Barent Groen, promotor-chefe do governo no caso, em uma entrevista em Durban.

Atualmente, Alberty trabalha 44 horas por semana como guarda de segurança, mas ainda ganha menos de US$ 175 por mês, único sustento dele e das outras 10 pessoas que vivem com ele. Mesmo tal renda foi ameaçada quando ele e outros doadores de rim foram brevemente presos no início deste ano por violação das leis brasileiras contra o comércio de órgãos humanos. Ele e mais um punhado de outros doadores ainda enfrentam processo criminal aqui.

Nos 18 meses concluídos em novembro passado, quando as autoridades desbarataram a rede, muitos moradores das favelas do Recife se apresentaram como voluntários, fazendo com que os intermediários começassem a oferecer apenas US$ 3 mil por um rim saudável.

"Mesmo após toda a confusão, eu faria novamente", disse Orley de Santana, um trabalhador de 26 anos, que foi para a África do Sul mas foi incapaz de vender seu rim por US$ 6 mil antes de a polícia desbaratar a rede. "Para não ter que matar nem roubar, eu acho que é melhor vender meu rim."



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